sexta-feira, 17 de julho de 2015

CRITICANDO A SEMELHANÇA – A AUTORIDADE DO PAPA E DO CORPO GOVERNANTE

  
 Continuando a série de artigos, sem mudar de tema, neste proponho tratar de um dogma católico que o CG critica, para depois tratar de um ensino do CG (que, na prática, produz o mesmo efeito que o dogma católico deveria produzir) e termino demonstrando que a crítica do CG ao dogma católico lhe é perfeitamente aplicável.

As TJ consideram a Igreja Católica e toda e qualquer outra religião, com exceção de uma (você leitor pode imaginar qual é a exceção), como aquilo que chamam de “Babilônia A Grande”, termo retirado da Bíblia e que se refere, segundo afirmam, ao império mundial da falsa religião - que também chamam de “cristandade”.

Não obstante colocar todas as religiões no mesmo “pacote” as TJ têm um desafeto especial para Igreja Católica.

Um exemplo disso pode ser visto no seguinte trecho de uma revista Despertai, quando um leitor escreveu a seguinte crítica após ler uma série de artigos publicados em uma Despertai onde a Igreja Católica e a figura do Papa teriam sido desrespeitadas:
Ficaram muito contentes, não é? Não puderam resistir à tentação de criticar a Igreja Católica, não é mesmo? Jamais os perdoarei pela forma como destroçaram sem misericórdia o Papa. Se as Testemunhas de Jeová precisam recorrer a críticas baixas na tentativa de derrubar outras religiões, elas estão em maiores dificuldades do que os católicos.
M. C., Flórida, EUA
A resposta que as TJ deram a isso foi:
Certamente não estamos tentando fazer críticas baixas ao papa ou à Igreja Católica, nem estamos criticando os católicos. A Igreja Católica ocupa posição muitíssimo significativa no mundo, e afirma ser o caminho da salvação para centenas de milhões de pessoas. Qualquer organização que assuma tal posição deve estar disposta a ser esmiuçada e criticada. Todos que criticam têm a obrigação de ser verdadeiros na apresentação dos fatos, e justos e objetivos na avaliação dos mesmos. Em ambos os sentidos, tentamos viver de acordo com tal obrigação
Despertai 22/12/84 p. 28

OBS – Embora não seja o tema aqui, devo destacar a seguinte semelhança entre a Igreja  Católica e as TJ: Embora as TJ não ocupem, comparativamente, uma posição tão significativa no mundo, também afirmam ser o caminho da salvação, não para centenas de milhões de pessoas, mas para todas as que vão ser salvas (pelo menos para todas aquelas nascidas após o início do movimento que se tornou as atuais TJ e que dele tiveram conhecimento), como se vê abaixo:

18 ...embora o testemunho dado agora ainda inclua o convite de vir à organização de Jeová para a salvação, sem dúvida virá o tempo em que a mensagem assumirá um tom mais duro, igual a um “grande grito de guerra”
S. 15/7/82 p. 21 p. 18

Sendo assim as TJ, que assim como a Igreja Católica também assume “...tal posição...” também devem estar dispostas “...a ser esmiuçada e criticada...(e este “blogueiro”, assim, como o CG não está criticando as TJ, mas sim, o CG e aquilo que consegue incutir na mente das TJ e, neste mister, sempre procurando ser verdadeiro “...na apresentação dos fatos...”, e justo e objetivo “...na avaliação dos mesmos”.)

            Mas voltando ao objetivo deste artigo pretendo analisar a crítica das TJ ao ensino católico da Infalibilidade do Papal, mas antes disso uma rápida definição do dogma:

"A infalibilidade se exerce quando o Romano Pontífice, em virtude da sua autoridade de supremo Pastor da Igreja, ou o Colégio Episcopal em comunhão com o Papa, sobretudo reunido num Concílio Ecumênico, proclamam com ato definitivo uma doutrina referente à fé ou à moral, e também quando o Papa e os bispos, em seu Magistério ordinário concordam em propor uma doutrina como definida. A esses ensinamentos todo fiel deve aderir com o obséquio da fé" (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, nº. 185).

            Em outras palavras (e centrando apenas na figura do Papa pois, como se vê acima, a infalibilidade é extensiva a outros clérigos), embora o Papa enquanto humano seja falível, quando fala na condição de sucessor do Apóstolo Pedro (para indicar esta condição é usada a expressão latina “ex cathedra”), sobre questões de fé, moral e doutrina, Deus retira do Papa a possibilidade de falhar a fim de manter a correção daquilo que anunciar.

            Sendo assim os católicos podem ter segurança nos ensinos que vêm do Papa, quando fala “ex cathedra” e, na prática, podem e devem praticar os ensinos recebidos de tal fonte, afinal, tais ensinos tornam-se uma ordenança (mais) atual de Deus para os católicos.

            Na prática, porém, muitos católicos (em especial aqueles que se dizem - católicos passivos) não atendem aos ensinos do Papa e da Igreja (haja visto, por exemplo, o uso de métodos anticoncepcionais por católicos) e até mesmo muitos padres acabam não observando o celibato, logo, a garantia de um ensino recebido de Deus que não sofre qualquer interferência de erro humano, não garante, na prática, plena aceitação e, principalmente, não motiva o cumprimento por todos os Católicos.

            Como a Igreja Católica, até em razão de sua longa história, tem uma longa lista de erros cometidos, surge a necessidade de se criar uma forma de se justificar tais erros a fim de manter íntegro o dogma da infalibilidade do Papa.

            A forma encontrada pelos católicos é (com razão) bastante questionável e o CG “compra” críticas feitas por certos escritores católicos para condenar o dogma, afirmando que a explicação gera uma situação sem perdas, nos seguintes termos:

Situação sem Perdas
Esta fórmula, que muitas pessoas têm dificuldade de entender, é também imprecisa, de acordo com certo teólogo alemão, o falecido August Bernhard Hasler. Ele mencionou a “imprecisão” e “indeterminação” da expressão ex cathedra, dizendo que “quase nunca se pode dizer quais as decisões que devem ser consideradas infalíveis”. Segundo outro teólogo, Heinrich Fries, esta fórmula é “ambígua”, enquanto Joseph Ratzinger [que veio a ser tornar  Papa Bento XVI] admitiu que o assunto tinha dado origem a uma “controvérsia complicada”.
Hasler sustentava que “a imprecisão dos conceitos” permite tanto uma aplicação extensiva do dogma, a fim de ampliar o poder do papa, como uma interpretação mais limitada, de modo que a pessoa, quando confrontada com ensinos errados do passado, sempre possa apoiar a afirmação de que estes não eram parte do chamado “magistério” infalível. Em outras palavras, é uma situação em que “se der cara eu ganho, se der coroa você perde”.
Despertai 8/2/89, p. 4

A crítica é bem colocada e um exemplo prático demonstra isso: Imaginemos uma TJ citando para um católico o seguinte fato histórico:
7 Os esforços para reprimir a divulgação do conhecimento bíblico assumiram também outras formas. Quando o latim deixou de ser a língua do dia-a-dia, não foram os governantes pagãos, mas professos cristãos — o Papa Gregório VII (1073-85) e o Papa Inocêncio III (1198-1216) — que se opuseram ativamente à tradução da Bíblia para as línguas usadas pelo povo comum.
S. 1/10/97 p. 11-12, par. 7
para, logo após, perguntar:

 – Se os Papas são infalíveis, como foi possível dois Papas terem se esforçado para evitar que a Bíblia fosse de conhecimento do povo?
A reposta será – Ocorre que quando tais Papas assim determinaram, não estavam falando “ex cathedra” logo, não estavam imunes ao erro.
Creio que podemos criar a seguinte regra prática para determinar, com excelente precisão, o que foi e o que não foi afirmado “ex cathedra”:

- Se aquilo que um Papa ensinou foi acertado na teoria e na prática e só produziu bons frutos – então ele falou “ex cathedra”

- Se o Papa afirmou algo que se mostrou falso, biblicamente incorreto e/ou só gerou frutos ruins ao longo dos tempos  – O Papa que assim o fez não falou “ex cathedra”.

            Assim fica fácil! Assim uma situação sem perdas realmente é criada, afinal, não importa se “deu cara ou coroa”, o dogma da infalibilidade fica preservado.

            Agora passo a tratar de uma doutrina do CG que na teoria é diferente da doutrina católica aqui tratada mas que, na prática, gera exatamente aquilo que o dogma da Infalibilidade Papal deveria gerar entre os católicos – plena aceitação, adoção e prática por todos os católicos.

Podemos chamar tal ensino do CG de:

ESCRITOS NÃO INSPIRADOS COM
AUTORIDADE DE ESCRITOS INSPIRADOS

Como pode ser visto ao longo dos artigos já escritos neste Blog, o CG tem uma incrível capacidade de incutir na mente das TJ duas formulações opostas entre si, mas que são aceitas como verdadeiras porque se revezam no papel de “A VERDADE” (aquilo que a Bíblia realmente ensina) conforme exigir cada situação.

A diferença (teórica) entre o ensino do CG e o dogma católico é bem evidente – na medida do necessário (leia-se: raramente), o CG defende (de forma bem expressa e enfática) que não é inspirado, que não é infalível. Exemplo disso:

15 Por causa desta esperança, o “escravo fiel e discreto” tem alertado a todos os do povo de Deus ao sinal dos tempos, indicando a proximidade do governo do Reino de Deus. Neste respeito, porém, é preciso observar que este “escravo fiel e discreto” nunca foi inspirado, nunca foi perfeito. Os escritos feitos por certos membros da classe do “escravo”, que passaram a constituir a parte cristã da Palavra de Deus, foram inspirados e são infalíveis, mas isto não se dá com outros escritos desde então.
S. 1/9/79 p.23, par. 15

            Diante de tal alerta as TJ poderiam (na verdade, deveriam) receber o alimento que vem do CG tendo em mente o que se afirmou na Sentinela:

O alimento recebido não é infalível, pode estar (total ou parcialmente) errado pois vem de homens não inspirados e sujeitos ao erro o tempo todo.

            Assim, deveria existir plena liberdade de discordar de tais ensinos, mas é isso o que ocorre?

       Você, TJ que está lendo este artigo, se sente livre em sua mente (lembrando que a única liberdade absoluta no ser humano é a liberdade de pensar) para discordar dos ensinos do CG?

       E mais que isso, sente liberdade para expor a seus co-irmãos sua discórdia e a defender ponto de vista contrário?

A resposta é óbvia, mas, porque ela é óbvia?

            Você, TJ, sabe muito bem que, se começar não só a pensar, mas também a defender que o CG está errado em determinado ensino se tornará um sério candidato ao título de APÓSTATA (o que é uma verdadeira ABERRAÇÃO – visto que você pode ser encarado como alguém que perdeu a fé em Jeová por discordar do ERRO!?!) e sabe todas as implicações disso, mas até dentro de sua mente a tendência nunca será de questionar o CG mas sim, irá encarar a “mudança da verdade” como prova de que Deus está refinando o entendimento de seu povo!

            E assim irá pensar porque, por mais que saiba que os ensinos do CG não são inspirados e podem estar errados, você, e todas as demais TJ ao redor do mundo, enxergam nos ensinos do CG A AUTORIDADE DE UM ENSINO INSPIRADO, logo, certo ou errado o ensino deve ser recebido como CERTO (Mt. 24:45) e assim deverá ser encarado, ensinado (como sendo uma verdade bíblica) e praticado até que venha a ser substituído por uma outra verdade, se assim vier a ocorrer!

E aqui concluo este artigo indicando que a (correta) crítica que o CG propaga contra o dogma da Infalibilidade do Papa, quando afirma que sua formulação gera uma “situação sem perdas, dê cara ou coroa” é exatamente o que ocorre quando se enxerga autoridade de ensino inspirado em ensinos não inspirados – O CG sempre estará certo, por mais errado que esteja. Mas vai além disso, o ensino do CG consegue, mesmo com a negação da infalibilidade, aquilo que o dogma católico não consegue pela afirmação dele, isso é – aderência absoluta, prática e o ensino aos outros como se verdade bíblica fosse – aquilo que não se sabe com certeza se é verdade ou não se torna VERDADE BÍBLICA, eterna enquanto durar.  

Encerro relembrando parte da crítica “comprada” pelo CG:

... de modo que a pessoa, quando confrontada com ensinos errados do passado, sempre possa apoiar a afirmação de que estes não eram parte do chamado “magistério” infalível...

e adaptando:
... de modo que a TJ, quando confrontada com ensinos errados do passado, sempre possa apoiar a afirmação de que estes não eram...

(o resto, se na sua mente sobrou algum resquício de liberdade, você conclui).

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Quer concordar? Quer discordar? Quer acrescentar algo? Quer indicar alguma necessária correção gramatical no texto? Escreva para mim:

1tessalonicenses5.21@gmail.com

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